quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Janela

Quero uma janela de rosas vermelhas
Janela espaçosa, comprida pra escorregar os cotovelos
Não quero mais sentir os pés quentes no sapato no fim da tarde
A roupa incômoda na conta da pele não acompanha o meu gesto intencionado de beleza
Quero sobrepor meu corpo cansado à cama macia
Quero rosas vermelhas na janela
Que abre e fecha
Abrem-se e fecham-se
Dia e noite
Caídas no tempo
São pétalas
São ao vento
Rosas vermelhas na janela
Vermelhas janelas abertas ao tempo
Espaçosas ao meu movimento

As rosas são sublimes e as janelas também
Perfeitas ao olhar
Converso no parapeito branco, cálido, que morre em mim
E o que vive exige a vida

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Vidro em flor

Pernas compridas na poltrona encostadas no recanto
Vaso na janela pra chamar Deus

À noite a chuva esvazia multidão
Vaso de flor prevalece úmido, roxo, cantando silêncios que ninguém alcança

A preferência é por dormir, a voz não preenche
Vaso na janela, com a flor quieta que salta do lugar

A noite expulsa a chuva pra terra comer
Fazer letras do úmido olhar e delas chover a minha janela

Aquela que abre o que vejo
e fecha o olhar quando vai madeira vidro em flor

Até

Pássaro beijou a flor
Cresceu do chão a rosa
Levou semente pro ar
Voou pro alto
O céu fez chover
Caiu a rosa beijada
O ar cheirou sua cor
A chuva fez o pássaro cantar
E ele voou o mais alto de suas asas
Até que a chuva caiu

Diálogo do nada

"Fala você então do que é Isso.

"Não sei não, contar é difícil pra quem viveu.

"Não quer dizer do que foi?
Talvez seja melhor espalhar o que tá junto na alma.

"Fica preso assim com nó de não acabar nunca a dor.

”Então me diga uma palavra. De onde pode vir tudo Isso que você sente, onde a gente possa entrar e se abraçar junto

"O problema é achar Isso que se chama.

"A gente vai longe demais. De Tudo.

”Voltar é que é difícil. Pra Onde?

"Faz assim: chora, pra ver se acontece de livrar da coisa.

"Não dá pra expulsar o que é da gente assim.

”Por quê? Deixa a lágrima lavar a pele.

"Seria bom mesmo. Antes de eu parar, quem sabe Isso entra de vez.

"Então esfrega e vê no que dá. Mas cuidado hein, não vá arrancar a ferida, pode doer sem chance de se agüentar vivo.

"Já esfregou alguma vez a cicatriz?

"Já, resolveu daquelas que nunca mais ficaram vermelhas. Amoleceram feito molduras onde se guarda Nada.

"Sei... nunca mais doeram?

”Não é bem assim, só você fazendo. Não tem receita não, é caso particular de cada um. Pense sempre que há um risco em destruir as camadas todas... Esperei que essa cor, esse vento, esse sempre fosse me visitar todos os dias. E hoje a insônia ocupa a fresta estreita alucinada noite adentro.

“É, Isso faz a gente se perder.

"No meio, a vida engasgada vai-se ao longe. E percorre juntando tudo. E Isso faz a gente se encontrar. E percorre juntando tudo, caindo o sobressalto, furtando o ruído, o encanto
E Isso faz a gente ruir de alegria. Vai-se ao longe a imagem do homem entre pernas finas de andar. Isso. Pernas, andar. Isso que anda sobre as pernas e entra nelas.

"Vai-se à vida a própria vida. Bastarda e insinuante, sedutora, precipício de amores. Levando por aí as palavras, levantando os mortos.

"Que vem nos matar?

No derradeiro segundo da vida entre

O desejo de matar o outro já me visitou e eu não o desejei.

O incômodo primeiro o manto inicial

a fácil cobertura a língua comum,

normalmente me parece transitório

e nada importante, embora incômodo.

Nele

no entanto

vive o grande seguinte momento que revela o outro.

Em sua beleza. E amo. Até a morte.

O que enxergo no derradeiro segundo

da vida entre.